O livro fala

Cecília acordou com a boca seca e uma sensação estranha. Algo comprimia o seu peito, era como se carregasse um saco de cimento sobre o tórax. Ela olhou para o lado e viu a cama da irmã vazia. Agora o quarto era só dela, a cama ficou ali para as visitas, caso elas viessem. Até mesmo para a irmã, quem sabe? Mas a mãe sempre lembrava que ela havia casado e pessoas recém-casadas não fazem muitas visitas, pois preferem curtir o cantinho só deles.

— Que sede — disse para si mesma. — Que droga!

Cecília tinha medo do escuro, a irmã, mais velha do que ela apenas quatro anos, era quem sempre pegava a sua água, mesmo sob muita reclamação.

— Por que não deixa a garrafa dentro do quarto se já sabe que vai sentir sede? Aff, que saco, Cecília!

Nessa hora a irmã lhe chamava pelo nome e não pelo apelido Cecí.

— Mas é que depois de beber a água, eu fico apertada para fazer xixi, então não adianta trazer a garrafa. — Cecília se justificou, como fez em todas as outras vezes, anos a fio.

— Só vou dessa vez, mas não conte mais comigo pra isso. — Giovana levantou-se emburrada e Cecília foi atrás.

Mas ela sempre ia, Cecília sabia que poderia contar com a irmã para tudo. Eram grandes amigas. A irmã acabou bebendo água, como sempre. Cecília queria perguntar porque a irmã tinha sede e nunca acordava, mas a cara dela estava tão emburrada, que desistiu.

— Você já não é mais criança e em breve eu não estarei mais aqui. Vai morrer de sede ou mijar na cama, vai? — O tom de voz agora era apaziguador. — Eu te amo Ceci, mas você tem que parar com esse medo do escuro.

As duas foram até o banheiro, fizeram xixi, não ao mesmo tempo, claro, e depois voltaram para cama. Essa foi a última vez que Giovanna socorreu Cecília no meio da noite.

Desde pequena que Cecília via coisas, mas ninguém acreditava, todos diziam que era coisa da sua cabeça e com o tempo ela passou a não falar mais nada, pois todos já estavam irritados com ela.

Ainda se lembrava da primeira vez em que havia visto a sombra da irmã caminhando pela parede branca do quarto. Foi assustador! Ela apenas cobriu a cabeça com o cobertor e chorou até pegar no sono novamente. Nesse dia ela mijou na cama.

Da segunda vez, ouviu um barulho vindo do alto, olhou para cima e viu duas pernas descendo pelo telhado. Apesar do pânico, ela passou uma das mãos no chão e sentiu os pedaços de telha que devem ter caído quando o invasor subiu no telhado. Ela gritou horrores e acordou toda a casa. Quando as luzes foram acesas, ela olhou para o alto e viu o telhado intacto, em sua mão não havia mais nenhum caco de telha. Todos disseram que foi um pesadelo, lhe deram água com açúcar e ela voltou a dormir, na cama da irmã, é claro.

Uma vez ela estava de toalha, entrando no banheiro, quando viu duas mãos envoltas em luvas pretas, tentando invadir o recinto. Era cedo ainda, todos estavam acordados, tudo estava claro. Não havia sido um sonho. Chamaram a polícia, vasculharam o quintal e todas as casas da redondeza. Ninguém foi encontrado, então a polícia foi embora de cara amarrada, eles pediram que ela não passasse mais nenhum trote.

Cecília cresceu e parou de ver coisas, mas o medo era o mesmo de tempos atrás. Ela sabia que era injustificado, mas vai dizer isso para o seu coração que palpitava todas as vezes que ela abria os olhos no meio da noite?

Respirou fundo, massageou o peito, fez uma oração e ergueu o tronco, pronta para colocar os pés para fora da cama, mas viu uma claridade vindo do corredor que interligava seu quarto à sala.

— Pai? Mãe? — Ninguém lhe respondeu.

Mesmo com medo, Cecília levantou-se e qual não foi sua surpresa ao ver alguém na sala.

— Quem está aí?

Sentado numa cadeira de metal pintada de vermelho, havia um homem. Ele mantinha a cabeça baixa, estava lendo um livro, de vez em quando grifava algo com um marca-texto. Cecilia tremia dos pés à cabeça, mas ela conseguiu dar um passo à frente e olhar mais de perto. 

O homem era magro, tinha uma camiseta social listrada dobrada até o cotovelo. Ela deu mais um passo e o reconheceu.

— Augusto? — Seu coração acelerou ao pronunciar o nome do seu primeiro e único amor. — O que faz aqui? Como você entrou?

Augusto continuava de cabeça baixa. Sua concentração estava no livro. Cecília o reconheceu, foi o último livro que eles trocaram, A letra escarlate. Ela amava aquele livro. Amava aquele homem também.

Cecília olhou para o relógio circular na parede e constatou que passava um pouco das três da manhã.

— Augusto, o que faz aqui a essa hora? — Ele continuou de cabeça baixa. Cecília já estava ficando irritada, principalmente por ele estar rasurando o livro que ela ganhou de presente de suas amigas. — Não dá mais para nós dois. Você mentiu para mim, lembra?

Augusto então ergueu a cabeça e olhou nos olhos de Cecília. Ela sentiu um amor tão grande passar por eles, sentiu uma dor excruciante também.

— Eu não quero ser a outra, mesmo que me doa deixar você, eu não quero e nem vou ser a outra.

Augusto nada responde, mas Cecília percebe que há algo estranho nele, parece uma poeira de brilho em volta de seu corpo que começa a ficar translúcido. Então ela se aproxima do interruptor e acende a luz, mas aí não o vê mais. Há apenas uma toalha de centro de mesa em crochê cobrindo parte do tampo de vidro, o livro sumiu, o marca-texto também. Na cadeira não há mais ninguém sentado.

— Jesus, eu voltei a ver coisas. — Sua voz saiu baixa e trêmula.

Ela faz o sinal da cruz três vezes e depois volta para o quarto. Ela não teve coragem de beber água, não morreria se ficasse algumas horas com sede. Naquele dia, a luz da sala e de seu quarto ficaram acesas. Demorou a pegar no sono.

                                                                                                                                _____

— Cecília, acorda! — Sua mãe sacudia os seus ombros carinhosamente, mas de forma insistente. — Vamos, Cecí, acorde!

Cecília abriu os olhos, mas ainda estava sonolenta. Havia tido sonhos perturbadores logo depois de pegar no sono, era como se tivesse lutado uma batalha. Sentia-se dolorida e muito cansada, precisava dormir muitas horas para compensar.

— Hoje é sábado, mãe, não tem aula!

Cecília estava concluindo o ensino médio e em dois meses o ano chegaria ao fim. Ela já estava cansada de acordar cedo todos os dias, pedia que as férias chegassem logo para passar umas semanas na casa da tia, em Salvador, o ruim era que veria Augusto sempre, já que eles eram amigos e foi assim que o conheceu.

— O que tem de tão urgente, mãe! Poxa! Eu acordo cedo todos os dias, deixa eu dormir mais um pouquinho, só hoje.

— Sua tia ligou, ela precisa falar com você, anda!

Dona Vanja, a mãe de Cecília, colocou o telefone no ouvido da filha. Ela continuou sentada na cama, com o olhar tenso, pois já sabia o que Nelza, a sua irmã, tinha para contar.

— Não. — Cecília gemia dolorosamente. — Não pode ser, tia!

Dona Vanja massageava a lateral de uma das coxas de Cecília, ela já perdeu um grande amor no passado e entendia o sofrimento da filha. Apesar de não aprovar o relacionamento da filha, pois descobriu que ele mentiu para a menina, ela gostava de Augusto e sabia o quanto a menina estava apaixonada, mesmo depois do término.

— Mãe! — Cecilia caiu em lágrimas ao soltar o celular.

Augusto havia morrido naquela madrugada, um acidente de carro tirou-lhe a vida de forma brutal. O que todos estranharam foi ele estar na rua de madrugada, sozinho.

— Por que, mãe? Justo ele, uma pessoa tão boa.

Vanja queria dizer que a morte estava ali para todos, bons ou maus, idosos ou crianças, mas não era isso o que sua filha precisava ouvir no momento. A menina chorou por horas e quando não lhe restava mais forças ou mais lágrimas, voltou a dormir. Ela sonhou com ele, com o dia em que o conheceu, com a forma como ele a seduziu e como ela se apaixonou perdidamente.

Augusto era carioca, filho mais velho do amigo de Antônio, marido de sua tia Nelza. Eles moraram no Rio de Janeiro na época, quando o tio foi transferido para lá. Eles já moraram em várias partes do Brasil, cada um dos filhos nasceu em um canto. Quando Antônio foi transferido para Salvador, Augusto veio passar uma temporada e acabou se encantando pela Bahia, ficou de vez.

Cecília o viu pela primeira vez no São João. Ele foi junto com a tia Nelza, passar os festejos no interior, se instalaram na casa de Vanja. Era ele, o mais velho da turma, que ficou encarregado de tomar conta da garotada quando os adultos voltaram mais cedo das festas de rua. Foi entre um forró e outro, ao som de Flávio José, que o primeiro beijo aconteceu. Tinha sabor de licor de jenipapo. Em todas as vezes que eles saíram, ficaram sem que ninguém soubesse, ao menos os adultos da família, já que os primos acobertaram o caso dos dois.

Ele tinha vinte e seis anos e ela, apenas dezessete. Mas faço dezoito em agosto, gostava de frisar. Foram duas semanas, entre Santo Antônio, São João e São Pedro. Aí eles foram embora e Cecília já estava apaixonada. Queria visitar a tia o tempo todo, já que eles moravam no mesmo prédio, mas os pais não deixavam para não atrapalhar os estudos.

Augusto também se apaixonou pela menina, mesmo sabendo que não deveria, tanto por ser mais velho, quanto por ter uma namorada, mas ele estava disposto a terminar o namoro e viver seu grande amor, assim que ela fizesse dezoito anos.

Um dia ele apareceu na cidade, como quem não quer nada, e foi visitá-la com o pretexto de levar-lhe um livro. Cecília nunca tinha lido livros espíritas, mas gostou da experiência. Ele conseguiu convencer os pais dela de deixar a garota sair com ele, era amigo da sua irmã e do seu cunhado, Vanja não viu porque negar.

Os dois passaram a tarde namorando dentro do carro. Os toques experientes, os beijos ardentes, os olhares apaixonados. Os dois transpiravam amor, o primeiro de Cecília, um dos muitos de Augusto. Mas ele a respeitou o tempo todo, nunca passaram dos amassos.

Assim, a cada quinze dias ele aparecia com um livro diferente, Cecília havia lhe confidenciado ser leitora voraz desde o primeiro encontro, ainda no São João, então os dois trocavam livros, os preferidos dele pelos preferidos dela.

No final de Agosto, Cecília completou dezoito anos. Os pais lhe fizeram uma festa linda, Augusto compareceu, mas apenas como amigos. Ele não conseguiu terminar com a namorada, ela chorou muito e pediu para ele considerar. Deram um tempo, mas para ela se acostumar, ele sabia que não teria mais volta, estava perdidamente apaixonado.

Depois da festa, a tia a convidou para passar o próximo fim de semana em Salvador. Os pais deixaram, ela era adulta agora. Augusto a levou, ela e os primos, ao cinema, depois foram para um restaurante e até mesmo uma boate. Foi uma noite mágica, ele a pediu em namoro e ela aceitou, claro.

Na porta da casa da tia, eles trocaram beijos e mais um livro. Cecília havia lhe emprestado A Letra Escarlate e Augusto lhe entregou o seu livro preferido: Entre o amor e a guerra, de Zíbia Gasparetto. A tia ainda não sabia do namoro dos dois, por isso beijaram-se no corredor do prédio, com a porta da rua fechada. Cecilia queria mais do que beijos, Augusto também, mas ele disse que só depois que conversasse com os pais dela, já que ele não era nenhum moleque de namorar a filha dos outros escondido, não agora que havia firmado compromisso.

Assim que os lábios dos dois se soltaram, uma mulher mais velha que Cecília mais nova que Augusto, se aproximou.

— Passei em sua casa e não te encontrei, imaginei que estivesse aqui.

Augusto ficou pálido e Cecília percebeu. Ele não apresentou as duas, mas a garota fez questão de fazer isso.

— Prazer, Joana, a namorada do Augusto.

Cecília apertou a mão que a jovem lhe estendeu. Ela estava trêmula e, com certeza, Joana sentiu o seu nervosismo.

— Ex-namorada. — Augusto corrigiu.

— A gente não terminou, deu um tempo, Augusto. — Joana foi enfática.

— Eu terminei, você pediu um tempo.

— A gente pode conversar em sua casa? — Ela pediu, tentando manter a calma, mas via-se o quanto estava nervosa.

— Não, a gente não tem mais nada para conversar.

— A gente tem sim e não gostaria que fosse aqui. — O tom de voz se elevou e a porta da rua se abriu. Nelza apareceu e olhou de forma questionadora.

— Pode falar, não tenho nada para esconder de minha namorada. — Augusto tentou pegar na mão de Cecília, mas ela a puxou, desesperada.

Ela não queria estar no meio daquilo, mas ela também não queria perdê-lo. Abraçou Entre o amor e a guerra como se fosse um escudo a lhe proteger. Joana olhou para o livro preso ao peito de Cecília e maneou a cabeça, raivosa.

— Eu estou grávida, Augusto e o filho é seu.

Cecília sentiu ânsia de vômito. Seus olhos nublam e ela corre para dentro de casa, indo direto para o quarto que dividia com a prima.

Foi a última vez que o viu, ao menos, com vida.

Cecília acordou chorando ao sonhar com todos os momentos dos dois. Ela tinha raiva dele, mas ainda o amava e não queria que ele morresse.

Ela foi ao enterro, no dia seguinte, e se despediu dele pela última vez, mas ficou de longe, não queria roubar o lugar de Joana, que agora sabia ser a sua noiva, já que ele era um homem de honra e jamais abandonaria a mãe de seu filho. Mesmo assim, Cecília ainda o amava.

                                                                                                                                   _____

Cecília chorou por uma semana inteira e, como mal dormia, acabou faltando alguns dias de aula. A mãe estava tão preocupada que pediu à tia que a levasse para passar uns dias em Salvador com ela. Cecília foi, mas no fundo ela queria mesmo era estar perto do que lhe lembrava Augusto.

— Você já está aqui há três dias e não sai de casa. Tá parecendo uma alma penada de tão pálida, Cecília! — Sua tia a repreendeu com carinho. — Vamos à praia comigo, não vou demorar, só tomar um solzinho e pronto. Aproveita que hoje estou de folga.

Mas Cecília não quis. Ela só ficaria ali mais alguns dias, iria voltar para casa no próximo fim de semana, não podia faltar tanta aula.

— Eu vou ficar bem, tia, eu juro!

Nelza saiu para a praia com as amigas, os filhos dela estavam na escola e não chegariam tão cedo. Cecília ficou sozinha, então resolveu ler o livro que, há dois meses, Augusto lhe emprestou. Ela ainda não havia conseguido pegar nele sem chorar.

Foram quase seis horas ininterruptas de leitura. Ela nunca leu um livro tão rápido. Ela sentiu todas as emoções e tensões que permeiam uma guerra. Assim como a jovem Denizarth, ela havia entregado o seu coração a Augusto, agora ele não estava mais ali. Fechou o livro e o encarou. Teria que devolver, só não sabia a quem. Ela também queria pegar o seu livro de volta, aquele que estava em seu sonho.

Cecília levantou-se do sofá, calçou os pés, ajeitou os cabelos bagunçados pelo jeito desengonçado com que sentou no sofá, e depois foi até a casa de Augusto. Apertou a sirene e esperou que alguém aparecesse, demorou, mas ela ouviu um clic e logo depois a porta se abriu, exibindo o rosto triste e cansado de Joana.

— Oi. — Cecília ficou sem jeito, não sabia como falar com Joana. — Eu só queria devolver o livro dele.

— Entre. — Joana se afastou da porta, indo em direção ao interior do apartamento. — Pode deixar aí sobre a mesa de canto. — Jogou-se no sofá e encheu um copo de bebida.

Cecília fez o que ela pediu e depois se aproximou da jovem viúva.

— Eu sinto muito por você. — Observou quando Joana encheu mais um copo de whisky. Era uma bebida forte, principalmente para uma mulher grávida. — Como está o … — apontou para a barriga de Joana. — o bebê?

Joana a encarou com olhos vidrados, sem vida, sombrios. Seria tristeza ou ódio mesmo? Ela soltou o copo sobre uma mesinha de canto ao lado do sofá e alisou a barriga com as duas mãos, pouco tempo depois, começou a esmurrá-la. Cecília se assustou com a cena e, mesmo assim, se ajoelhou aos pés de Joana, tirando as mãos agressivas da barriga.

— Não faça isso, vai machucá-lo!  — Ela começou a chorar. — Vai se machucar. — Abraçou a mulher que convulsionou em choro. — Imagino o quanto está sofrendo, mas não castigue o bebê.

Ficaram assim alguns segundos até que a respiração de Joana foi se acalmando e as lágrimas deram início a uma gargalhada dolorosa e assustadora.

— Que bebê? — Sorriu com ironia. — Não tem mais bebê. — Joana voltou a chorar. — Não tem mais bebê. — Seu choro se tornou escandaloso, ecoando pelo apartamento e saindo pela porta que Cecília não havia fechado. — Eu perdi o bebê e ele me deixou quando soube disso. Ele me abandonou para ir atrás de você.

Cecília se afastou de Joana ao sentir o ódio que emanava de suas palavras, mas não conseguia deixar de pensar no que ela havia dito. Ele foi atrás dela, a amava, então. Mas não tinha como ficar feliz com nada daquilo. Um bebê morreu, uma mulher abandonada sofria e o seu amor estava morto. Só havia dor e sofrimento naquela sala. Havia ódio também, Cecília sentiu, e achou melhor se levantar do chão e ir embora.

— Ele te amava e eu o odiava por isso — esbravejou enquanto Cecília dava alguns passos para trás. — Eu te odeio por isso, te odeio, te odeio.

Cecília não conseguiu sentir raiva dela, pelo contrário. A mulher jogada naquele chão havia perdido bem mais do que ela. Mas ela não sabia como ajudá-la, então resolveu deixá-la só.

Assim que chegou ao apartamento da tia, bateu a porta atrás de si e chorou copiosamente. Se acalmou quase meia hora depois, agora seu rosto estava grudento das lágrimas que ali secaram. Levantou-se, foi até o banheiro e lavou o rosto. Ao retornar para sala, ouviu batidas na porta e deduziu que haviam sido os primos, mas enganou-se ao se deparar com Joana.

— Oi. — Estava mais calma, nem parecia a jovem raivosa de mais cedo. — Eu vim pedir desculpas e te convidar para um chá.

Cecília odiava chá, ainda mais numa tarde calorenta, mas quis aceitar a trégua. Sentiu o celular vibrando em seu bolso e viu que era uma mensagem da sua tia lhe avisando que já estava chegando em casa. Ela comunicou que estava indo até a casa de Augusto, com Joana, e logo retornaria.

No curto caminho até o apartamento de Augusto, as duas mal se falaram. Cecília estava tensa e Joana, calma demais. Elas entraram, a porta foi fechada dessa vez e uma mesa posta para chá enfeitava o canto da sala, perto da estante de livros. Cecília lembrou-se que deveria pedir o livro dela de volta, mas esperaria terminar o chá para não ser mal educada.

— Pode sentar — Joana falou, quase em um sussurro, Cecília pensou que ela pudesse estar dopada, talvez à base de calmantes, mas não a julgaria, não diante de tudo o que estava passando. — Prefere com ou sem açúcar?

Cecília ergueu o rosto e a encarou, o olhar de Joana parecia vago, distante dali, era assustador. Ela teve vontade de dizer que não gostava de jeito nenhum, mas preferiu ser educada.

— Com açúcar, por favor. — Assim desce mais fácil, pensou.

Joana mexeu a colherzinha na xícara por mais tempo que o normal, antes de entregá-la para Cecília. Seus movimentos eram mecânicos, pesados e angustiantes. Logo depois ela estendeu a xícara na direção de Cecília e sentou-se, servindo-se de uma dose de whisky.

— Você não vai querer chá também? — Cecília perguntou, logo depois de dar um primeiro gole no chá que ela achou intragável. — Talvez seja bom para relaxar…não que você esteja tensa.

— E não estou. — Joana meneou a cabeça enquanto falava. — Tô bem relaxada. — Sorriu maquiavelicamente.

Cecília se assustou com a expressão dela, um medo apossou-se de seu íntimo e ela teve vontade de sair correndo dali. Olhou para a porta e viu a chave pendurada na fechadura. Será que ela havia trancado? Será que daria tempo de correr e alcançar a porta antes de Joana?

— O chá está delicioso. — Preferiu manter a boa educação.

— Sério? — Gargalhou pendendo a cabeça para trás. — Augusto dizia que meu chá tinha gosto de travagem. Eu nem sei o que é travagem.

Cecília também não sabia, mas não quis render o assunto Augusto. Falar sobre ele não foi muito agradável da última vez que estivera ali, há pouco mais de uma hora atrás. Ela ficou quieta tomando o chá, enquanto seus olhos vagueavam pela estante abarrotada de livros.

— Você gosta muito de ler, não é? — Joana lhe perguntou, também olhando para a estante. — Igualzinha a ele.

Cecília continuou calada, não queria falar sobre ele, ainda mais com Joana. Ela continuou olhando para a estante e sentiu uma leve tontura. Os livros pareciam dançar para ela.

— Ele morria de ciúme dos livros dele, não emprestava por nada. — Joana continuou falando, ela não se cansava de falar sobre ele. — Entre o amor e a guerra era o seu preferido. Nunca o emprestou a ninguém, nem mesmo a mim.

Cecília sentiu um aperto na garganta. Não era apenas emocional, era físico também. Era como se ela inchasse por dentro, como se sofresse um choque anafilático. Tirou os olhos da estante e os devolveu para Joana.

— O que você fez? — Encarou a xícara pela metade, ela já havia tomado metade daquele chá intragável. — O que você botou no chá?

Cecília conseguiu visualizar o sorriso distorcido de Joana. Toda ela estava distorcida. Cecília tentou enfiar o dedo na garganta, mas não tinha mais domínio sobre o próprio corpo. A cabeça pesou quando ela dobrou o corpo tentando vomitar e Cecília caiu de bruços no chão, praticamente ao mesmo tempo em que um livro também caiu da estante, como se fosse empurrado, como se se jogasse ali para ela.

— Socorro. — Cecília sentiu a voz sair com dificuldade.

Joana não se mexia da cadeira, seus olhos continuavam vidrados na estante enquanto a pobre garota se arrastava pelo chão, lutando pela própria vida. Cecília chorava enquanto, apoiada pelos cotovelos, tentava se aproximar do livro que percebeu ser o que emprestou a Augusto.

— Um dia eu pedi o seu livro emprestado e ele disse que não.  — Sorriu sem humor. — Disse que era a única coisa sua que ele poderia guardar.

Cecília conseguiu alcançar o livro, mas quase não tinha forças para abri-lo. Sussurros ecoavam de suas páginas que ela percebeu estarem manchadas de sangue. A Letra Escarlate estava grifada com um marca-texto da cor do título. Cecília não conseguia ler, mal conseguia enxergar, mas ela lembrou-se do que viu na madrugada em que ele morreu. Era uma mensagem para ela, ele quis falar com ela antes de morrer.

— Naquela noite a gente brigou feio e eu perdi a cabeça. Eu não queria ter perdido a cabeça, mas não consegui evitar quando ele me disse que agora que não tinha mais bebê, também não teria mais a gente. A culpa foi sua! Toda sua, ele me amava antes de você aparecer! — A voz estava exaltada. — Ele estava sentado no sofá com esse livro nas mãos, ele sempre estava com esse livro por perto, seja sobre a mesa de cabeceira ou debaixo do travesseiro. Era como se levasse você, dentro dele, para todos os cantos. Eu o odiava por isso. Eu odiava você por isso. 

Joana levantou-se da cadeira com uma garrafa vazia de whisky

— Naquela noite, enquanto eu arrumava as malas e ele lia aqui na sala, eu me aproximei por trás com uma tesoura, eu só iria cortar o livro, mas ele tentou protegê-lo, tentou proteger você, e sem querer eu o acertei bem na base do pescoço. — Curvou-se sobre o próprio corpo, gemendo de dor. — Ele ficou com medo e saiu de casa, cambaleando, com a chave do carro nas mãos. — Ergueu o tronco, limpando o nariz com as costas das mãos. — Eu ia levá-lo ao médico, eu me ofereci para isso, mas ele me mandou ficar longe dele, não confiou em mim e me olhou com repulsa. Eu o amava e ele me olhou com repulsa.

O choro de Joana ecoava pelo apartamento. Batidas foram ouvidas na porta, mas ela não fez sinal de que abriria, continuou andando em direção a Cecília que a essa altura, já sabia que morreria.

— Ele não aguentou dirigir por muito tempo, bateu o carro num poste com tanta força que parte da estrutura caiu em cima do carro e esmagou ele. Esmagou o meu amor e a culpa foi minha, mas também foi sua! — gritou, totalmente sem controle.

Joana ergueu a garrafa, segurando-a com as duas mãos e a mirou na cabeça de Cecília, que nada viu, já que estava de costas, mas também, nada poderia fazer, visto que não tinha forças. Mas algo inusitado aconteceu e todos os livros da estante saltaram com força na direção de Joana, atirando-a ao chão. Cecília se agarrou ao livro e fechou os olhos, ou eles fecharam sozinhos, era o fim e ela iria morrer, com certeza. Outro estrondo se seguiu, mas Cecília não viu mais nada, nem quando foi colocada dentro de uma ambulância do Samu, nem quando deu entrada no hospital, totalmente em choque. Ela só acordou três dias depois.

Sua tia lhe relatou, com brevidade para não assustá-la, sobre tudo o que aconteceu.  Augusto lhe enviou um aúdio, enquanto estava tentando chegar ao hospital, e contou sobre a tentativa de assassinato, mas o celular foi esbagaçado com a queda do poste e a mensagem nunca chegou. Quando ele foi levado ao IML, os médicos viram que o corpo foi esfaqueado antes da batida. Então estavam investigando antes de anunciarem a tentativa de assassinato, inclusive, conseguiram recuperar as mensagens e foi assim que descobriram sobre Joana, que já se encontrava presa naquele momento.

Sua tia respirou fundo antes de voltar a falar.

— Quando você me disse que estava indo para a casa dele, com a Joana, eu havia acabado de receber uma ligação da polícia, então nos encaminhamos logo para a casa dele. Foi por muito pouco, ainda bem que aqueles livros a derrubaram. — Olhou para a sobrinha. — Aliás, como aqueles livros caíram da estante? Foi você?

Cecília meneou a cabeça e olhou através dos vidros que separavam a enfermeira de onde estava, do resto das outras alas do hospital.

— Não, foi Augusto. — Segurou o choro. Ele tentou salvá-la até o último momento. — Foi o meu amor que me salvou, tia.

Nelza não quis contradizer a sobrinha ao lhe explicar que os mortos não têm esse poder, mas a menina estava abalada e passou por bons bocados, melhor relevar.

— Seus pais dormiram aqui, eles têm vindo todas as noites, durante o dia eu troco com eles, para os pobres tomarem banho. — Levantou-se da cadeira, afofando o travesseiro da sobrinha. — Os médicos disseram que já poderia ser liberada assim que acordasse, vou chamá-los e já volto.

— Tia, cadê o meu livro?

— Qual? Aquele todo sujo? Você estava grudada nele, daí os enfermeiros o colocaram num saco, por causa das bactérias. Em casa você abre e olha direitinho — Afastou-se da sobrinha, indo em direção à porta, mas antes de sair, voltou-se, rindo. — Só você mesmo para pensar no livro numa hora dessas. — Depois saiu do quarto.

Cecília não queria esperar chegar em casa. Quando a tia sumiu de vista, levantou-se e foi até a estante, rasgando um saco onde tinha suas roupas do dia do acidente e o livro. Ela o pegou e foi até a cama, abrindo e alisando cada folha, cada palavra grifada, lendo-as em voz alta.

Ao final da última página, ela já estava em lágrimas, pois Augusto havia lhe escrito, de forma codificada, uma linda carta de amor. Cecília apertou o livro contra o peito, chorando de emoção. Uma enfermeira e o médico entraram no quarto e se preocuparam com o que viram, mas a tia tratou de tranquilizá-los.

— Essa menina ama livros desde pequena, chora com eles como se estivesse dentro das histórias — Acariciou os cabelos da sobrinha. —, mas está tudo bem, né Cecília?

A jovem balançou a cabeça, afirmativamente. Um sorriso surgiu em meio às lágrimas. Ela chorava de felicidade, pois conseguiu, mesmo pelo breve espaço de tempo, viver um amor tão lindo quanto o de qualquer romance. Ela amava livros e amava Augusto e agora tinha os dois ali, juntinhos, perto dela.