Eternamente culpado

 

       

          Ele já estava cansado de ver a família passando fome e não poder fazer nada. Todos o julgavam por isso. O sogro o humilhava, as cunhadas o olhavam como um estorvo e os irmãos sempre apontavam os seus erros.

          Tá, ele escolheu uma profissão ingrata, investiu o dinheiro da venda do terreno dela num negócio que não deu certo. Como poderia adivinhar que perderia tudo?

           Naquele dia voltou para casa cabisbaixo, não aguentava mais olhar a cara dos vizinhos. Sabia que todos ajudavam sua esposa e filhos. Estava sentindo-se humilhado.

          A vizinha da frente o olhou com pena.

          — Levanta a cabeça, João! — Dona Alzira era a única que não o julgava. — Vida que segue, homem!

          Ela se aproximou dele e deu-lhe um abraço, pediu que esperasse e entrou em casa. Voltou logo depois com uma pequena panela bem quente.

          — Segura nas alças que a sopa tá quente — instruiu João enquanto lhe ajudava a ter um melhor apoio. 

          João tirou a camiseta de botão para segurar a panela quente, ficou apenas com a regata branca que estava por baixo

          — Isso, deixa cair não que tá muito gostosa. — Orientou mais uma vez, antes de soltar a panela de vez. 

          Dona Alzira bateu o pano de prato carinhosamente nas costas dele e voltou para dentro de casa. Antes de fechar a porta, ela falou:

          — Tem jeito pra tudo nessa vida, João, só não tem jeito pra morte.

          Por pura educação, ele concordou com um leve aceno de cabeça. Ela entrou em casa e ele ficou parado pensando na vida. Mordeu o lado interno da bochecha para evitar que as lágrimas começassem a cair. Assim que tomou coragem, empurrou a porta e entrou também.

          — Painho! — o pequeno João Pedro gritou, correndo para abraçar as pernas do pai que se equilibrou para não derrubar a panela. — Bença, pai.

 

          João abençoou o filho e depois deu um beijo carinhoso na testa da esposa.

          — Nada ainda, nêgo?— perguntou já sabendo a resposta. — Deus dá o frio conforme o cobertor, a gente aguenta mais um pouco.

          Marisa pegou a panela das mãos do marido e a colocou sobre a mesa, apoiou a camisa no encosto da cadeira. Pegou pratos no armário e colocou-os ao redor da sopa.

          — Vai tomar um banho que daqui a pouco a gente janta. — Olhou carinhosamente para o marido. — A Claudinha tá cochilando, a febre baixou, tá melhor já.

          — Ah, eu trouxe a vitamina caseira que o Tonho falou. Ele disse que é tiro e queda, tomou, fica logo boa — falou orgulhoso por sentir-se útil ao levar algo para casa. — Disse que como a nossa situação não tá boa, seria bom dar pra todo mundo, pra evitar fraqueza. 

          Uma porta se abriu e Claudinha apareceu esfregando os olhos. Sorriu ao ver o pai.

          — Painho, tava com saudade. — Abraçou a cintura do homem que retribuiu o amor.

          — Tá melhor, filha? — Coloca a mão na testa da menina. — Trouxe uma vitamina pra você, tá bom? Vai ficar boa logo!

          João beijou a filha e depois se afastou.

          — Podem jantar sem mim, tô com fome não, mulher.

          Marisa sabia que era mentira, ele queria que sobrasse comida para os filhos. Não podia ter escolhido um marido mais carinhoso, nem um pai melhor para os seus filhos.

          — Dá pra todo mundo, homem.

          João se apressou para ir ao banheiro, não queria chorar na frente das crianças, mas estava sentindo-se um lixo de gente. Cresceu sabendo que o homem era o arrimo da família e agora dependia dos outros para sustentar os próprios filhos. 

          Não tinha mais como pagar o aluguel da casinha em que moravam, próxima semana teriam que se mudar para a casa dos pais dela e isso já estava deixando ele preocupado. Não tinha jeito. Iria deixar a esposa e filhos aos cuidados do sogro e depois daria cabo da própria vida. 

          O sogro havia pago um seguro de vida para ele quando começou a trabalhar em local perigoso, mas não ficou por lá muito tempo, porque a empresa faliu. O contrato do seguro já iria vencer, ele teria que morrer antes disso para deixar algo para a família. Aquele veneno estava com ele há uma semana, ia e voltava da rua em sua companhia. Só estava esperando Claudinha ficar melhor para depois partir.

          Enquanto a água caía sobre o seu corpo, as lágrimas escorriam de seu rosto. Era um homem bom, mas não aguentava vê a família passando necessidade. Os filhos iriam perdoá-lo um dia, a esposa também. Só não sabia se teria o perdão de Deus.

          Orou o Pai Nossa diversas vezes, puxou a cortina e pegou a toalha. Se enxugou, depois se vestiu. Não poderia ser encontrado nu, seria muita falta de respeito.

          Colocou a calça e a regata no cesto de roupa suja, quando procurou a camisa para tirar o veneno do bolso, lembrou que havia deixado na sala. Um pânico tomou conta dele. E se a esposa visse? E se descobrisse a sua intenção? Adiantou os passos até a sala e caiu de joelhos ao ver toda a sua família arriada no chão com a boca cheia de espuma.

          — Não, Deus! Você não pode fazer isso comigo. 

          Se arrastou até a família, tentando acudir um por um, mas todos estavam inertes. Na mesa encontrou o frasco do veneno, nele estava escrito Vitamina C. João lembrou que colocou um esparadrapo no frasco para ninguém desconfiar, mas o feitiço havia virado contra o feiticeiro. Ele chorou por horas e depois saiu em disparada pelas ruas, até ver o mar. 

          Era lindo e o chamava para si. João não pensou duas vezes antes de andar até onde não tinha mais chão. Aquela praia não ficava cheia à noite, era mais usada pelos pescadores que pelos turistas. Apenas a lua testemunhou o seu desespero.

          No dia seguinte ele apareceu nos jornais locais. CRIME BÁRBARO CHOCA A CIDADE: HOMEM MATA A FAMÍLIA E DEPOIS COMETE SUICÍDIO.

          João queria fugir da humilhação, mas acabou sendo condenado, mesmo depois de morto.